“Deixe de imaginar coisas.
Me dê sua mão,
E esqueça a imaginação.
Voe,
cante
e me ame.
Amanhã,
você vai para a escuridão.
Você canta,
você voa,
mas não me ama.
Você fez uma canção
mas não me deu
a sua mão.
Meu amor,
é porque você gosta
da multidão.”
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Eu Nunca Guardei Rebanhos
Alberto Caeiro
I -
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
I -
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Pesadelo
(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)
Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí
Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Luto
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Os Colares e as Contas
Em memória de Ednaldo Miranda
A esperança de um homem
também cansa.
E há aquele dia
em que ele reúne as ruínas
e ensaia a retirada.
Um misto de perfume e pólvora
bafeja o colóquio
do Rei Midas
com o Rei Mídia
ali onde vampiros erguem brindes
e urnas recolhem
votos e mais votos.
Crianças amolam as navalhas
no peito dos mendigos
olhando os vendilhões
do shopping-templo.
Rosas vermelhas requebram
pintando-se de cinza/amarelo.
E pétalas vão caindo nas cloacas.
O cenário é um painel
de uniformizada geometria
onde todas as figuras se arredondam
decepando-se de bases
vértices e arestas.
Na coreografia se destaca
um quadrado de quinas desbastadas
ralando-se em rodeios de roda
e acenando ao rei.
Na orquestração
foram mixados e diluídos
os gritos e gemidos
da teia e da tocaia.
Mas emergindo da gosma
de negócios e discursos
as dores da cidade vaga-lumam
e se inscrevem
nas linhas do arco-íris.
Um raio colorido acende o chão.
O homem é arrastado à rua por um imã
e lê no céu com a multidão.
Dos olhos se descolam
películas geladas.
As bocas rugem um sopro
que unido em ventania arranca
cenários palcos máscaras
fantasias e cartazes.
E vaias vomitam línguas de fogo
formando fogueiras aladas.
Uma chuva leva as cinzas
e lava as cicatrizes.
O sol se alarga meio metro
e enxuga tudo num instante.
De um lado gritam: fogo!
Queremos fogo!
Mas nada de incêndios loucos.
Poupemos nossas chamas
como se faz com os trocados
e as roupas de domingo.
Alguém lamenta amargo:
estou cansado de plantar
sem ver os frutos!
Mas aqui ninguém ingressa
no primeiro ato
nem há de alcançar o último.
Não existem cadeiras numeradas
e às vezes as cortinas são fechadas
enquanto continua
o espetáculo sem reprise.
A vida de um homem
é um colar de contas ano a ano.
A vida de um país se conta
em colares de décadas e séculos.
Os ritmos da história
não cabem nos quadrantes do relógio
nem podem ser guardados
no cofre ou no casaco de ninguém.
Mas sem as horas e os minutos militantes
retarda-se a história
também movida
a sonhos bem guardados.
As linhas do arco-íris dizem mais
do que todas as telas coloridas.
E elas anunciam
estrada e horizonte
unindo
vaga-lumes e estrelas.
QUEM O FARÁ?
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