quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

TEMPO

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente…
.
… para você,
desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
.
Para você,
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
.
Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
.
Gostaria de lhe
desejar tantas coisas
mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada
minuto, rumo a sua felicidade!!!”
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Olinda

Música de Antonio Madureira sobre o Poema de Carlos pena Filho...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Soneto do Amor Total


(Vinícius de Moraes)
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Mundo Pequeno



(do livro “O Livro das Ignorãças”)
Manoel de Barros
I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

De Longe Te Hei-de Amar

(Cecília Meireles)
De longe te hei-de amar 
- da tranquila distância 
em que o amor é saudade 
e o desejo, constância. 

Do divino lugar 
onde o bem da existência 
é ser eternidade 
e parecer ausência. 

Quem precisa explicar 
o momento e a fragrância 
da Rosa, que persuade 
sem nenhuma arrogância? 

E, no fundo do mar, 
a Estrela, sem violência, 
cumpre a sua verdade, 
alheia à transparência. 

in 'Canções'

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

QUATRO SONETOS DE MEDITAÇÃO


(Vinícius de Moraes)

I

Mas o instante passou. A carne nova 
Sente a primeira fibra enrijecer 
E o seu sonho infinito de morrer 
Passa a caber no berço de uma cova. 

Outra carne vírá. A primavera 
É carne, o amor é seiva eterna e forte 
Quando o ser que viver unir-se à morte 
No mundo uma criança nascerá. 

Importará jamais por quê? Adiante 
O poema é translúcido, e distante 
A palavra que vem do pensamento 

Sem saudade. Não ter contentamento. 
Ser simples como o grão de poesia. 
E íntimo como a melancolia. 


II

Uma mulher me ama. Se eu me fosse 
Talvez ela sentisse o desalento 
Da árvore jovem que não ouve o vento 
Inconstante e fiel, tardio e doce. 

Na sua tarde em flor. Uma mulher 
Me ama como a chama ama o silêncio 
E o seu amor vitorioso vence 
O desejo da morte que me quer. 

Uma mulher me ama. Quando o escuro 
Do crepúsculo mórbido e maduro 
Me leva a face ao gênio dos espelhos 

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos 
Vindos de ver a morte em mim divina: 
Uma mulher me ama e me ilumina. 


III

O efêmero. Ora, um pássaro no vale 
Cantou por um momento, outrora, mas 
O vale escuta ainda envolto em paz 
Para que a voz do pássaro não cale. 

E uma fonte futura, hoje primária 
No seio da montanha, irromperá 
Fatal, da pedra ardente, e levará 
À voz a melodia necessária. 

O efêmero. E mais tarde, quando antigas 
Se fizerem as flores, e as cantigas 
A uma nova emoção morrerem, cedo 

Quem conhecer o vale e o seu segredo 
Nem sequer pensará na fonte, a sós... 
Porém o vale há de escutar a voz. 


IV

Apavorado acordo, em treva. O luar 
É como o espectro do meu sonho em mim 
E sem destino, e louco, sou o mar 
Patético, sonâmbulo e sem fim. 

Desço na noite, envolto em sono; e os braços 
Como ímãs, atraio o firmamento 
Enquanto os bruxos, velhos e devassos 
Assoviam de mim na voz do vento. 

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe 
Sem dimensão e sem razão me leva 
Para o silêncio onde o Silêncio dorme 

Enorme. E como o mar dentro da treva 
Num constante arremesso largo e aflito 
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Oxford, 1938

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ERÓTICA É A ALMA

(Adélia Prado)
Pernas entrelaçadas
as minhas, as tuas
sem saber de quem são
as mãos!
língua aventureira
desvenda meus sonhos
molha minha pele
Tesão!
jogado na cama
passeio em teu corpo
como tua carne
em ritual
Oração!
Eros nos move
Baco nos guia
ao prazer sem pressa
até que eu morra em teus braços
renasça em tua boca.
Para que morras em meu corpo
e renasças
dentro de mim.